TENHO ORGULHO DE TER FEITO PARTE DESSA LUTA!

TENHO ORGULHO DE TER FEITO PARTE DESSA LUTA!

LEMBRANÇAS DO PASSADO...

 

A pesquisa e o discurso abaixo,

da querida professora Berenice Picanço de Oliveira,

me traz ternas lembranças de um passado distante,

porém muito importante para o meu crescimento

enquanto cidadã e profissional.

Fui aluna do "Curso de Pedagogia do Município"

até janeiro de 1996,

quando tive de trancar a minha matrícula

para acompanhar o meu marido

que foi transferido para Brasília.

O destino me afastou da UERJ

mas continuei acompanhando

o êxito das colegas que lá deixei.

 

RELEMBRANDO NOSSA LUTA...

Foi graças a um grupo de jovens professoras

da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro

e de sua brava Coordenadora

do Curso de Pedagogia da UERJ,

Berenice Picanço de Oliveira,

que conseguimos manter o nosso direito de estudar,

tendo envista que o governo que assumiu na época

queria nos barrar por causa da

ilegalidade funcional que o Curso apresentava.

 

ABAIXO À INJUSTIÇA!

Nos foi informado que as turmas que já estavam realizando

o Curso de Pedagogia/Convênio com a Prefeitura

continuariam somente até a formatura

e que nós, recém aprovadas no vestibular,

teríamos a nossa matrícula cancelada

devido a divergências políticas

relacionadas a dispensa

de professores para estudarem.

Essa decisão não foi motivo

de esmorecimento das alunas

matriculadas no 1º período

(1º e 2º turno), que unidas,

 me elegeram representante dos seus interesses.

 

FOMOS À LUTA!

Primeiro, marcamos uma audiência com a

Senhora Sonia Mograbi,

Secretária  Municipal de Educação na época,

que sensibilizada com os argumentos,

encaminhou ao

Prefeito César Maia

a sugestão de que se criasse uma Lei

que permitisse o afastamento de professores

das salas de aula para realizar o

CPM/Convênio com a Prefeitura,

sem prejuízo de seus vencimentos.

 

CÂMARA DOS VEREADORES

Organizei uma comitiva de alunas,

que humildemente foram à Câmara dos Vereadores

solicitar aos políticos que aprovassem a Lei enviada pelo Prefeito,

em prol de uma categoria que só queria poder estudar.

PROJETO DE LEI

No dia da votação do Projeto de Lei,

estávamos lá na Câmara,

alunas e o Sindicato dos Professores,

com faixas e cartazes, torcendo e rezando.

Ao ser aprovado o Projeto de Lei

que nos permitia a dispensa para estudarmos,

foi uma comoção geral.

Ainda posso ver a chuva de papéis picados

que foram lançados para o alto.

Ali, naquele exato momento,

nascia uma nova Elizabeth,

determinada, guerreira e destemida.

Certa de que

"toda lei emana do povo e em nome dele deve ser exercido."

e que não há vitória sem luta.

Sempre de forma pacífica,

obediente às leis vigentes em nosso país,

a conquista de um intento será alcançado

desde que seja justo e honesto.

 

MEU RESPEITO

Registro o meu carinho  e respeito pelas colegas do CPM,

que ombro a ombro, unidas, em harmonia,

alcançaram o objetivo ao concluir o Curso de Pedagogia.

 

TRISTEZA...

Lamento não ter concluído o Curso pelo qual lutei tanto,

mas agradeço a Deus a honra de ter sido lembrada

no dia da formatura das minhas parceiras,

que ao dispensarem a esta colega

uma singela homenagem,

emocionou o meu coração.

OBRIGADA PELA OPORTUNIDADE ÍMPAR

DE TER PARTICIPADO DESSA CONQUISTA!

 

Professora Elizabeth Santanna

(Ex-aluna do CPM da UERJ)

 

DISCURSO

Profª Berenice Picanço de Oliveira.

Patrono turma CPM/2005

 

“Um curso não acaba

quando a sua última turma o conclui.

Na verdade, um curso não acaba nunca,

ele viverá sempre nas experiências

pessoais e profissionais dos seus ex-alunos”.

"Na perspectiva de resgatar, pela memória, algumas das histórias dos sujeitos praticantes (Certeau, 1994) de um curso universitário, destinado, exclusivamente, a professores e professoras com formação, em nível médio, e atuante nas redes pública e privada e a fim de contribuir com o tema proposto pelo Congresso, acumulando saberes acerca das histórias de vida e memórias, apresento um fragmento do que pude coletar, refletir e desenvolver a partir de uma pesquisa mais ampla, realizada por um grupo de discentes, atualmente no quarto período da graduação em pedagogia, Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, na disciplina Pesquisa e Prática Pedagógica.

Esta pesquisa tem como tema central o CPM - Curso de Pedagogia Habilitação: Magistério das Séries Iniciais e compreende o período entre os anos de 1990 e 2005, quando o curso foi criado e oferecido pela Faculdade de Educação – UERJ, a professores e professoras regentes dos anos iniciais da educação fundamental, que buscaram a Universidade, num processo de formação continuada.

Em síntese, este trabalho possui como objetivo registrar as histórias de vida, a partir de algumas lembranças de seus protagonistas, tendo como temática principal a passagem de cada um deles por este curso de formação continuada de professores,

ao longo dos dezesseis anos de sua existência na UERJ.

Em um primeiro momento, este texto fará menção a respeito às especificidades deste curso, desde o surgimento até o seu término, que ocorreu em 2005. Esses dados ou informações foram possibilitadas através da pesquisa e análise em documentos que se encontram arquivados na própria Faculdade de Educação da UERJ e que foram disponibilizados para esta pesquisa, que busca recuperar um pouco da história recente desta Instituição.

Em seguida, faço a apresentação dos fatos que originaram o interesse na proposta de se escrever parte da história do CPM, apresentando informações de como está sendo o desenvolvimento desta pesquisa na área das histórias de vida, utilizando a metodologia da história oral, buscando através do resgate das memórias de alguns dos seus atores, não só alunos(as), como também professores(as), gestores(as) e até funcionários do quadro técnico administrativo que, de alguma forma ou em algum momento lecionaram e ou deixaram a sua parcela de contribuição para construção da memória deste curso.

Para finalizar faço uma auto-avaliação, que pretendo crítica e qualitativa, de como tenho sentido, observado e interpretado meu (des)envolvimento e descoberta do meu EU pesquisadora. Neste espaço trago o relato de possíveis dificuldades que, paulatinamente, tenho experimentando, mas também as descobertas desta sensação nova de debutar no universo dos pesquisadores (as).

É dando voz a alguns destes sujeitos que vivenciaram o CPM, como nos ensina Goodson (1994), que será possível o resgate de parte das histórias de vida, em formação, de cada um deles, e de forma concomitante permitir recriar também parte da história deste curso e, consequentemente, possibilitando a construção de conhecimento acerca de histórias ainda não contadas no contexto da história da educação brasileira.

 

CPM, um curso de especificidade própria

O Curso de Pedagogia: Magistério das Séries Iniciais do 1º grau - licenciatura plena da Faculdade de Educação, conhecido como CPM, teve seu tempo de duração compreendido entre 1990 até dezembro de 2005, muito embora as primeiras aproximações entre a SME-RJ – Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e a UERJ, que desembocou na sua criação tenha acontecido a partir de 1989.

Do ponto de vista da legislação, o seu surgimento tornou-se possível com a Deliberação nº 007/91, que criou o Convênio de Cooperação Mútua celebrado entre o

MUNICÍPIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO,

através da Secretaria Municipal de Educação (SME-RJ), e a

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO,

em 8 de fevereiro de 1991.

O estado do Rio de Janeiro no momento da criação do curso passava por grandes problemas referentes à educação básica e, nela, a qualidade do ensino, pondo por inúmeras vezes em dúvida, a capacidade profissional dos docentes atuantes, principalmente, nas escolas da rede pública, de dar respostas adequadas a realidade existente à época, o que não se afasta muito da crítica existentes em nosso contexto atual.

Com a finalidade de fazer frente a esta situação e buscar a atualização em serviço para estimular o professorado a desenvolver um pensamento crítico em relação às próprias práticas de ensino e metodologias utilizadas em sala de aula, incitando-o a otimização do trabalho a ser executado, é que surgiu a cooperação entre a SME-RJ e a UERJ, possibilitando o acesso desses profissionais à Universidade, num curso de características de formação continuada, o que tornou o CPM um curso diferenciado entre os demais cursos de pedagogia existentes em sua época.

Esta habilitação em nível superior, inicialmente, foi oferecida em caráter experimental destinada, com exclusividade, para cento e cinqüenta professores(as) formados pelas antigas “Escolas Normais” de nível médio, ou seja, escolas de formação de professores para o Magistério da 1ª a 4ª series, do antigo 1º grau e que, na época, estivessem lecionando nas escolas da rede pública do Município do Rio de Janeiro.

Além deste pré-requisito, para se garantir uma vaga neste curso específico da UERJ, era necessário ao candidato(a) passar por uma seleção, mediante concurso vestibular, oferecido, de forma exclusiva e diferenciada do vestibular geral da Instituição, para o público interessado e adequados ao perfil exigido. Portanto, o candidato (a) tinha que estar em efetivo exercício de magistério, em turmas do pré-escolar, da classe de alfabetização - da C.A, da

1ª.até a 4ª série do 1º grau, atualmente, 1º ao 5º ano, da educação fundamental ou, ainda, como professor(a) orientador(a) nas unidades escolares em horário integral, na rede pública do município do Rio de Janeiro.

A motivação que levou esses professores(as), a procurar um curso para habilitá-los em uma competência que já exerciam, possui várias faces, seja para suprir as deficiências de formação demonstradas no cotidiano das escolas em que trabalhavam, seja por interesse de ascender na carreira profissional, seja para acatar a obrigatoriedade, que num momento, no decorrer da existência do curso CPM, acabou determinando que todos os profissionais da

educação básica de 1ª a 4ª séries do primeiro grau, em nosso país, deveriam ter a formação em nível superior, seja, enfim, por necessidades pessoais ligadas a desejos individualizados .

Diversas foram as motivações, cabe a nós, alunos-pesquisadores, em nosso trabalho encontrar algumas dessas razões ou motivações.

A guisa de esclarecimento, a sigla CPM significava, em sua origem, a abreviação de: Convênio com a Prefeitura Municipal. Com o fim do convênio em 1994, passou a ser interpretada como Curso de Pedagogia: Magistério das séries iniciais.

A discussão na própria UERJ em torno da reserva de vaga e mudanças políticas ocorridas na política municipal devido às eleições, o que alterou a gestão na SME-RJ, pôs fim ao convênio. Entretanto, é possível afirmar que entre 1991 e 1993, cerca de 450 professores(as) da rede pública municipal, tiveram acesso à Universidade e, conseqUentemente, ao curso.

Com esta interrupção ocorreu uma primeira e significativa mudança no perfil do público ingressante, pois a democratização do acesso permitiu a admissão de profissionais também da rede privada de ensino, modificando um pouco a natureza do CPM em sua origem.

Para transformar ainda mais o perfil originário dos alunos (as) do CPM, em 1996/97, as vagas que já eram oferecidas para profissionais atuantes nas redes públicas e privada de ensino, passaram a ser oferecidas também para os indivíduos com formação em nível médio nas escolas de formação de professores, mas, agora sem a obrigatoriedade de estarem exercendo a profissão.

Esta última mudança ocorreu devido a alguns fatores, entre os quais destaco dois: o primeiro ligado a nova LDB, Lei 9394 – promulgada em 1996, que passou a exigir a formação de professores (as) dos anos iniciais da educação básica em nível universitário a partir de 2007 e a segunda ligada a crise de desemprego na área da educação, provocada por essa medida, onde muitos professores(as) recém-formados nas escolas “Normais” e que não possuíam formação superior, acabavam ficando excluídos do mercado de trabalho. Buscando atualizar-se, e atender ao novo contexto educacional o curso passou por sua última mudança em relação ao caráter do perfil para ingresso de seus alunos(as), abrindo as portas da universidade para esta nova demanda.

Entendendo que uma instituição de ensino não se esgota na sua materialidade, mas que existe e se constitui também através das práticas dos sujeitos que a vivenciam, é possível afirmar que as transformações ocorridas ao longo do período de existência do CPM, causaram alterações identitárias no curso, o que, necessariamente, não nos remete a um juízo de valor, mas sim a constatação deste processo que foi dinâmico. Logo, devemos estar atentos ao

entrevistar sujeitos que participaram da história do CPM, pois certamente, não iremos encontrar uma história coesa, isto é, única para todos em qualquer que seja o recorte que venhamos a fazer nos dezesseis anos de sua duração.

Pode-se ampliar essa discussão dizendo que o mesmo ocorrerá nas entrevistas a serem realizadas com o quadro de professores(as) e os gestores do próprio curso, que ao longo do tempo também sofreu modificações.

É coerente então afirmar que muitas e diferentes serão as histórias a serem narradas, ouvidas e escritas, pois diversas também são as redes de subjetividades (Santos, 2000) ali presentes.

Entre os múltiplos espaços-tempos do CPM a sala de aula, por exemplo, passou por composições de diferentes sujeitos, desde alunos(as) com vários anos de experiência profissional no magistério na rede pública de ensino ou na rede privada até alguns(as) profissionais com pouca ou sem nenhuma experiência.

Esta diversidade presente no perfil dos universitários (as) que vivenciaram o CPM, como disse anteriormente, não chegou a se constituir em problema para a existência do curso e muito menos para a pesquisa agora realizada, pelo contrário, pois quer as trocas de experiências realizadas por eles, quer a diversidade de contextos vivenciados e possivelmente relatadas ao pesquisador(a) irão nos proporcionar um interessante e instigante trabalho de

pesquisa.

Embora o curso tenha passado por diversas mudanças ao longo do seu período de existência, sempre manteve sua motivação inicial, ou seja, estar destinado a formação continuada dos professores, buscando no eixo ação-reflexão-(renov)ação sua singularidade.

Entretanto, as novas demandas sociais, as modificações ocorridas a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da reforma na educação brasileira em todos os níveis, a ausência de uma avaliação constante e possível reformulação ou adaptação da matriz curricular as novas exigências nacionais, a falta de interesse dos gestores da Instituição,

entre outros fatores levaram ao término do curso,

que formou sua última turma em 2005. (...)"

 

 

 

 

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