ELE FEZ A DIFERENÇA...

 

Grande Ruy Barbosa de Oliveira

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça,

de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude,

a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

Ruy Barbosa e Família

 

LEGADO DE RUY BARBOSA NA CRIAÇÃO DA ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA

    O século XIX iniciou o debate sobre o conteúdo que a escola, então pública, laica, gratuita e obrigatória, deveria transmitir aos seus alunos. Ruy Barbosa, brasileiro, Jurista, Político, Diplomata, Escritor, Filólogo, Tradutor e Orador,  (1849 – 1923), participou ativamente deste debate, no Brasil, contribuindo para divulgar as ideias sobre a necessidade de dar primazia ao ensino de ciências no interior do processo educativo.

    Este intelectual deixou transparecer o seu entusiasmo pelo ensino das ciências nos seus famosos pareceres: Reforma do Ensino Secundário e Superior – 1882 (Barbosa, 1942) e a Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública – 1883 (Idem, 1947), documentos estes que, pela sua importância, consistem na memória viva do pensamento deste autor sobre os problemas educacionais de seu tempo.

    Nestes textos, Ruy Barbosa, escreveu que o princípio vital da organização do sistema educacional seria a introdução do ensino das ciências, desde o jardim de infância até o ensino superior.

    As ciências consistiam no eixo fundamental da reforma defendida por Ruy, pois este considerava o aprendizado desta matéria primordial para o homem desfrutar dos progressos da sociedade. Para preparar este homem para a vida moderna fazia-se necessário um ensino totalmente diferente do ministrado nas escolas de então, pois estas se preocupavam apenas com o catecismo, com a memorização e com a retórica.

    Para Ruy Barbosa era preciso privilegiar novos conteúdos, como ginástica, música, canto e, principalmente, o ensino das ciências. Esses novos conteúdos, associados aos conteúdos tradicionais, deveriam ser ministrados de forma a desenvolver no aluno o gosto pelo estudo e sua aplicação. Recomendava, portanto, a adoção do método intuitivo.

    Para Ruy Barbosa, essas mudanças no sistema de ensino eram fundamentais para tornar o Brasil uma nação civilizada. Neste sentido, a escola a ser difundida deveria estar voltada para a vida e carregada de conteúdos científicos visando a formação do trabalhador e do cidadão.

   A introdução de novos conteúdos escolares exigiu uma ampla defesa das ciências frente à sociedade, uma vez que nenhuma reforma se faz naturalmente. Neste sentido, Ruy Barbosa criticou enfaticamente a valorização de conhecimentos considerados inúteis para as novas necessidades sociais. Para ele, os conteúdos ofertados pela escola apenas adornavam o aluno com informações a serem repetidas nos salões.

    Ignorava-se que a educação e a disseminação das ciências poderiam trazer muitos benefícios para a sociedade. Defendeu a necessidade de organização dos Sistemas Nacionais de Ensino, destacando a importância do ensino das ciências, pois o novo homem carecia de um ensino totalmente diferente do ministrado nas escolas de seu tempo, um ensino livresco e catequético, que se utilizava da memória como único recurso didático.

            Ruy Barbosa defendia que o ensino deveria utilizar-se da observação e experimentação, procurando estimular a utilização dos sentidos e o entendimento. Para tanto, o método intuitivo deveria ser adotado.

        Assim, inspirando-se nas ideias de Spencer, procurava não só alterar a forma de transmissão de conhecimento predominante no Brasil, como também pretendia difundir um novo método.

    Para Ruy Barbosa, mudanças referentes ao método e conteúdo a serem implementadas no nosso sistema de ensino, eram fundamentais para tornar o Brasil uma nação civilizada.

    A produção neste país estava marcada pela agricultura monocultora realizada em latifúndios e assentava-se no trabalho escravo em vias de extinção e o trabalhador livre nacional encontrava-se à margem dessa produção. Assim, fazia-se necessário disciplinar e formar o indivíduo apto ao trabalho livre.

Neste processo, para Ruy Barbosa, a educação tinha um papel importante. Seu objetivo era modernizar a sociedade na direção do seu desenvolvimento econômico industrial e agrícola.

    Os sistemas nacionais de ensino criados na Europa respondiam a outras necessidades colocadas pela contradição do capital. Entretanto, este se mostrou viável no Brasil à medida que atendia às necessidades específicas postas.

    A educação deveria ser, como defendia Spencer, muitas vezes citado por Ruy Barbosa, um prazer comum – tanto para o professor, quanto para o aluno.

    Deveria também se adequar às fases da vida da criança, pois, além da instrução propriamente dita, era preciso educar os sentidos do homem para ver, ouvir e sentir o mundo que o cercava.

    Assim, a escola a ser difundida deveria estar voltada para a vida e carregada de conteúdos científicos, formando o trabalhador e o cidadão.

Entretanto, o país valorizava o aprendizado dos conhecimentos “inúteis” que apenas adornavam o aluno com informações a serem repetidas nos salões. Ignorava-se que a educação e a disseminação da ciência poderiam trazer muitos benefícios.

    Por isso, Ruy Barbosa empenhou-se em sua defesa:

"...lembremo-nos de que uma coisa há que mais pode em favor da lavoura do que a própria fecundidade do solo e em sustentação da integridade nacional do que os exércitos numerosos: é a ciência, que faz a guerra, e distribui a vitória; que ensina a não empobrecer o torrão fértil, e a converter a esterilidade mais ingrata na mais opulenta uberdade." (Barbosa, 1947, t. II, p. 16)

    O ensino das ciências foi muito enfatizado no século XIX. As conquistas obtidas no processo produtivo, a partir da revolução tecnológica, que permitiu a automação do trabalho, revelavam que a ciência tornava-se palavra de ordem da modernização.

    A educação poderia desenvolver habilidades necessárias ao trabalho, desde que seus conteúdos fossem úteis e de caráter prático. O conteúdo científico assumia um papel primordial, pois podia ser utilizado na vida prática e no trabalho. O ensino de química, por exemplo, podia ser de muita utilidade, tanto na fábrica como na agricultura.

    A escola proporcionaria os conhecimentos mais adequados à vida, seja social ou individual. As ciências propiciariam o desenvolvimento da memória e do raciocínio, bem como, disciplinariam a moral e desenvolveriam a independência do caráter.

    Assim, faria um importante serviço à cultura dos sentimentos morais. Neste sentido, a ciência para Ruy Barbosa, influenciado por Spencer, era religiosa e moralizante.

    O objetivo da escola voltava-se para a formação do cidadão; a ciência, porém, era o seu conteúdo. No método, na forma de transmiti-la, era possível enfatizar o sentimento e as relações a serem mantidas na sociedade.

    A preocupação com o ensino das ciências é maior quando Ruy Barbosa trata da organização do ensino secundário. Nele pode-se constatar a grande preocupação com a aplicabilidade do conteúdo a ser ensinado. Neste sentido, o ensino das ciências é fundamental, pois pode ter aplicação direta no trabalho, evidenciando seu caráter utilitário – ao homem moderno este conhecimento é importante, pois garantiria a sua manutenção.

    Ruy Barbosa considera importantes os conhecimentos relacionados ao desenvolvimento físico, à vida familiar e à ordem social e política, dando continuidade aos conteúdos iniciados nos jardins de criança e no ensino primário. Destacou, contrapondo-se ao verbalismo, a necessidade da unidade entre ciências e letras, nos cursos que preparariam para o ensino superior, pois este nível de ensino dedicar-se-ia ao ensino da ciência propriamente dita, através da utilização do método experimental.

    Este ensino deveria especializar e fomentar o desenvolvimento industrial e agrícola no Brasil, propiciando o alcance do progresso e da riqueza material.

    Frente a ameaça da classe trabalhadora de fazer a revolução social, em fins do século XIX, fez-se necessário preservar a sociedade burguesa e suas instituições.

    Neste momento, evidenciaram-se as contradições fundamentais desta forma de organização social: o antagonismo entre burguesia e proletariado, a produção social e a apropriação individual, a produção de riqueza na mesma proporção do aumento da miséria, entre outras. Neste estado de crise social, a ciência ensinada na escola passa a ser enfatizada pelo valor moral que se acreditava existir em seu método. É importante ressaltar que foi preciso extrair um conteúdo moralizante e unificador da ciência, colocando a necessidade de um novo método para evitar o acirramento das relações e a destruição da sociedade burguesa.

    Apesar de no Brasil a luta de classes não se colocar da mesma forma como na Europa, ela impeliu transformações sociais, pois o imperialismo e a imigração forçaram este país a modernizar-se. Para tanto, fazia-se necessário abolir a escravidão, adotar uma nova forma política e reformar diversas instituições, entre elas, a escola e seu conteúdo.

    Estas idéias estão presentes na obra de Ruy Barbosa, pois concebia que o ensino das ciências permitiria preparar o homem para o trabalho, seja agrícola ou industrial.

 O trabalho agrícola no Brasil, neste momento, era rudimentar e realizado por escravos. Para reverter este quadro, a disseminação da escola pública, bem como do conteúdo escolar, ocuparam um papel importante.

    Os conhecimentos proporcionados através do ensino das ciências assumiram, neste contexto, um papel fundamental, mostrando-se necessários para uma sociedade que pretendia industrializar-se. Assim, a educação poderia desenvolver habilidades necessárias ao trabalho, desde que seus conteúdos fossem úteis e de caráter prático.

    O conteúdo científico assumiu, então, um papel primordial, pois podia ser utilizado na vida prática e no trabalho. Estas ideias eram compartilhadas por muitos outros autores, dos quais destacou-se o pensamento de Herbert Spencer. Este autor foi citado por Ruy Barbosa muitas vezes para reforçar seus argumentos em favor do ensino das ciências, que, para ele, não poderia estar dissociado do cultivo dos sentimentos cívicos e morais. Para tanto, a forma de transmitir as ciências também precisava ser revista de maneira que fosse possível enfatizar os sentimentos.

    Ao olhar-se atentamente para o passado, observou-se quão conflituosa fora a posição assumida por Ruy Barbosa frente a defesa da necessidade de implementação da escola pública e das ciências, enquanto componente curricular.

    Neste sentido, o pensamento deste autor não pode ser desvinculado do próprio movimento que o produziu. Além disso, o conjunto das proposições defendidas revelou sua compreensão mais ampla dos problemas enfrentados pela sociedade do que apenas a especificidade de uma proposta de educação.

    É preciso considerar que ele se envolveu com questões fundamentais para a sociedade em um momento de transformação social.

     Foi com esta perspectiva que analisei a posição assumida por Ruy Barbosa de Oliveira, com relação à defesa da necessidade do ensino das ciências.

 

 Referências Bibliográficas:

BARBOSA, Rui. Reforma do ensino secundário e superior. Obras completas. Vol. IX, tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1942.

SPENCER, Herbert. Educação intellectual, moral e physica. Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, 1927.

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